Delegado Aroldo explica, com detalhes inéditos, por que a operação na Penha foi legítima e desmonta narrativas de “chacina” e “falta de inteligência”. Análise profissional que a mídia ignorou.
Olá, meus queridos leitores que me acompanham, tudo bem? Eu, Aroldo, delegado de polícia do Rio de Janeiro, inativo.
Sou formado em Direito — como o cargo exige, por ser privativo de bacharel em Direito — e sou pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal.
Inicialmente, eu preciso dizer que não estou fazendo propaganda, nem sou favorável a nenhum político. Não estou aqui apoiando governador nem nada disso. Mas, de tanto ouvir besteiras por aí, tive realmente a necessidade de gravar esse áudio para vocês e levar alguma informação.
Informação isenta, sem interesse político.
Houve essa operação no Complexo da Penha e do Alemão e logo vimos vários políticos e simpatizantes tanto da direita quanto da esquerda discutindo. De um lado dizendo que tinha que ser assim, do outro dizendo que não podia.
E então surgiu essa conversa de que “não houve inteligência”, como se inteligência fosse apenas capacidade de raciocínio humano. O que está se discutindo aqui é atividade de inteligência do Estado.
Isso leva muita gente a pensar que, se houvesse inteligência, não haveria confronto, nem morte. Só que é justamente o contrário: em áreas conflagradas, quanto mais inteligência, mais confronto — e mais possibilidade de danos colaterais.
A atividade de inteligência do Estado é voltada a buscar conhecimento e informações para que as autoridades administrativas tomem decisões. E foi essa inteligência que detectou praticamente um exército de homens armados à margem da lei, muitos inclusive usando roupas camufladas e equipamentos táticos.

A partir dessa inteligência, desenvolveu-se uma investigação — excelente investigação, por sinal. Dessa investigação surgiram mandados de prisão e mandados de busca e apreensão. Muita gente diz que faltou investigação. Não faltou: foram identificadas quase 100 traficantes, alguns desses são lideranças de algumas organizações criminosas, inclusive de outros Estados que atuavam no Complexo da Penha e do Alemão, praticando vários crimes além do tráfico de drogas.
Quero lembrar também da operação bem-sucedida em São Paulo, que identificou lavagem de dinheiro do PCC na Faria Lima. Bilhões foram deixados indisponíveis. Aqui no Rio, outra operação prendeu até um deputado — conhecido como TH Joias — e também bloqueou valores milionários. Tudo isso graças à inteligência financeira, que identifica movimentações suspeitas e encaminha para investigações maiores.

“Afinal, ‘Sal’ era só sal… ou era sentença? Janja desejou ou não desejou a morte do Mito?”
Mas é importante entender: essa é uma inteligência que pega o criminoso que usa caneta, computador, terno e gravata, e não o que está com um fuzil na mão.
Nas áreas conflagradas, a inteligência inevitavelmente leva ao confronto, porque os criminosos ali são treinados para enfrentar a polícia. Não estão lá para se entregar.
Então, quando alguém diz “faltou inteligência”, está vendendo ilusão. A investigação durou um ano, e não foi longa por ser lenta, mas porque foi profunda: descobriu, provou e levou o Ministério Público a denunciar. E o Poder Judiciário, com base nisso, decretou os mandados.
Dizer que não houve inteligência é enganar o povo.
Também ouvi dizer que não houve planejamento. Se não houvesse, a polícia sequer teria entrado naquela região.
E o mais grave: estão chamando a operação de chacina. Até chefe de Estado disse que foi “matança”. Isso é de uma irresponsabilidade tremenda.
Chacina é morte aleatória de inocentes.
O que houve foi legítima defesa.
Cinco policiais foram mortos — não foi tentativa, foi homicídio mesmo.
Quem reagiu estava em legítima defesa própria e de terceiros.
Chamar isso de chacina é chamar os policiais de homicidas, se individualizados os policiais. Isso, teoricamente, pode configurar calúnia.
E como a operação está sendo acompanhada pelo STF, com uso de câmeras, imagens e transparência, é ainda mais irresponsável propagar essas narrativas enquanto as provas mostram que tudo foi feito de acordo com a legalidade.
A inteligência funcionou. A investigação funcionou. O planejamento existiu.
E ficou perto da perfeição — só não perfeita porque policiais morreram e ficaram feridos.
Qualquer polícia do mundo teria dificuldade semelhante naquele terreno, onde os criminosos estavam com quase cem fuzis e armamento de guerra.
A inteligência identificou, inclusive, que criminosos de outros estados pagavam para serem escondidos ali.
Portanto, chega de ouvir bobagens. Agora vocês sabem: houve muita inteligência, muito planejamento e muita investigação.
Eu disse anteriormente que chamar policiais de homicidas poderia configurar calúnia. Mas, como muitos não especificam nomes, apenas “a polícia”, a doutrina entende que não se aplica calúnia por não apontar pessoa determinada. Ainda assim, configura dano moral coletivo, pois famílias de policiais mortos ou feridos escutam essas acusações injustas. Essas famílias são, sim, vítimas.
O testemunho técnico do delegado Aroldo expõe algo que raramente chega ao público: operações complexas em áreas dominadas por facções não são romantizadas — são estratégias de Estado baseadas em inteligência, investigação e risco extremo.
A narrativa política tenta, muitas vezes, simplificar o que é impossível simplificar. E ouvir alguém com décadas de experiência mostra como análises superficiais sobre “inteligência”, “planejamento” ou “chacina” distorcem completamente a realidade operacional.
É essencial que, ao discutir segurança pública, o Brasil ouça quem conhece o terreno, não apenas quem conhece o palanque.

Concordo parcialmente com a ponderação apresentada pelo Dr. Aroldo, especialmente no que se refere à existência de diferentes níveis de planejamento de curto, médio e longo prazos, que, no campo técnico, correspondem ao planejamento estratégico, tático e operacional. Em operações complexas, particularmente aquelas que se assemelham a cenários de conflito armado urbano, é inerente a ocorrência de danos colaterais e prejuízos diretos, os quais, embora previsíveis sob a ótica técnico-operacional, nem sempre são explicitados de forma transparente em todas as esferas institucionais envolvidas.
No caso concreto, observa-se que a subestimação do risco operacional, aliada a uma percepção equivocada de invulnerabilidade, muitas vezes reforçada por discursos de autoconfiança excessiva, comprometeu a eficácia da ação. Tal postura, associada à participação de agentes extremamente jovens, com reduzido tempo de serviço e experiência prática limitada, inclusive ocupando posições de comando e decisão, contribuiu para um cenário de elevada exposição ao risco. A sólida formação teórica e a elevada capacidade intelectual desses profissionais, embora relevantes, não substituem a vivência operacional acumulada ao longo dos anos em campo, especialmente em contextos de alta letalidade.
Os eventos ocorridos no início da operação, com agentes sendo alvejados precocemente, geraram não apenas desorganização tática e dispersão da equipe, mas também repercussões institucionais, simbólicas e sociais profundas. Destaca-se, nesse contexto, o grave prejuízo causado pela morte de policiais integrantes do Batalhão de Operações Especiais, cuja formação demanda mais de uma década de treinamento contínuo, seleção rigorosa, investimento financeiro expressivo do Estado e acúmulo de experiência operacional altamente especializada. A perda desses profissionais representa um dano irreparável à capacidade operacional da corporação, não apenas pela ausência imediata do efetivo, mas pela interrupção de um capital humano estratégico que não pode ser rapidamente recomposto.
Além disso, somam-se as perdas humanas de outros servidores públicos, igualmente comprometidos com o cumprimento do dever legal, cujas vidas não poderiam ,nem deveriam , ser tratadas como estatisticamente aceitáveis ou inevitáveis. Do ponto de vista jurídico-administrativo, tais perdas configuram não apenas falha no gerenciamento do risco, mas também afrontam os princípios da eficiência, da proporcionalidade e da proteção do agente público, que devem nortear a atuação estatal.
Paralelamente, a comoção gerada contribuiu para a construção de uma narrativa pública emocionalmente distorcida, que, em determinados setores, acabou por relativizar a responsabilidade penal de criminosos fortemente armados, deslocando o foco do debate para interpretações sociológicas simplificadas. Tal abordagem ignora o fato de que o engajamento em organizações criminosas armadas decorre de escolha consciente, não podendo ser dissociado da responsabilização individual nem sobrepor-se ao valor da vida dos agentes do Estado que atuam na defesa da ordem pública.
Sob a ótica jurídica, institucional e da gestão pública, esse conjunto de fatores evidencia a necessidade de maior rigor na análise prévia de risco, na composição das equipes, na maturidade decisória dos quadros de comando, bem como na comunicação institucional. Tais elementos são essenciais para evitar perdas humanas desnecessárias, prejuízos operacionais irreversíveis e narrativas que fragilizam a legitimidade da ação estatal. A experiência demonstra que operações dessa natureza exigem não apenas planejamento formal, mas sobretudo prudência, liderança experiente e plena consciência das consequências humanas, jurídicas e sociais envolvidas. Ass: Mario Theophilo da Rocha Santos Cel BM RR ..Advogado OAB RJ e Professor da Rede Pública.
Obrigado pelo seu comentário.